
Qual seu nome completo?
Alcy José de Vargas Cheuiche.
Onde e
quando nasceu?
Em Pelotas, Rio Grande do
Sul, no dia 21 de julho de
1940, o mesmo dia e mês de
Hemingway, meu escritor
predileto.
Como você
se define?
Hoje? Sou um escritor e
ponto.
Como foi
a sua infância? Você era uma
criança que já costumava
ler? Se sim, do que você
gostava?
Minha infância foi
maravilhosa, em Alegrete,
onde cheguei com 4 anos de
idade. Meu pai era
veterinário do Exército, no
tempo da Cavalaria. Ele
arrendou uma granja a poucos
quilômetros da cidade para
produção de leite, mas o que
mais produziu foi a
felicidade da minha mãe e de
todos nós. Ali aprendi a
andar a cavalo, a nadar, a
subir em árvores, a
respeitar a natureza em
todas suas manifestações,
formas e cores. Não por
acaso, o meu livro “O
Mestiço de São Borja”, de
1980, é considerado um dos
primeiros romances
ecológicos do Brasil.
Antes de ser alfabetizado no
Instituto de Educação
Oswaldo Aranha, ouvia
extasiado as histórias
contadas pelo meu pai, um
fantástico narrador. Aliás,
depois fique sabendo que a
narrativa oral é uma
característica comum dos
árabes, em especial dos
libaneses. E meu avô emigrou
do Líbano, como narrei no
romance “Jabal Lubnàn, as
aventuras de um mascate
libanês”.
Os primeiros livros que li
foram de Monteiro Lobato e
me acompanham até hoje. Eu
tinha sete anos quando ele
morreu e chorei como se
fosse uma pessoa da minha
família. Quando fui à
Grécia, fiquei impressionado
com o que aprendera em
criança nos seus livros, em
especial nos romances
históricos infanto-juvenis
“O Minotauro”e “Os Doze
Trabalhos de Hércules”.
E a sua
família? Como era?
Meu pai, Alcy Vargas
Cheuiche, era um homem
enérgico, disciplinador, mas
paciente para tudo explicar
aos filhos e aos amigos dos
filhos. Inclusive, as razões
porque participara das
revoluções de 1930 e 1932.
Era getulista, mas, embora
fosse Vargas por parte de
mãe, nunca se aproveitou
disso em sua carreira.
Fanático pela educação e
cultura, diplomou-se em
medicina veterinária e
direito, numa época em que
um só diploma era raro.
Depois de aposentado,
dedicou-se a tarefas
comunitárias sem
remuneração, tendo presidido
a Fundação Educacional de
Alegrete por cerca de vinte
anos. Criou uma dezena de
cursos superiores, entre
outras façanhas.
Minha mãe, Zilah Tavares
Cheuiche, era uma pessoa
inteiramente dedicada à
família. Muito inteligente,
pouco falava, mas não tinha
medo de nada. Aliás, pelo
lado dela, sou descendente
em linha reta do Coronel
João da Silva Tavares, o
Visconde do Cerro Alegre,
que lutou contra os
farroupilhas durante os dez
anos da Guerra dos Farrapos,
tema de outro romance meu.
Eu adorava quando meu pai
narrava essas histórias em
que os Silva Tavares e os
Vargas eram protagonistas, o
que foi muito estimulante
para a minha vocação de
escritor.
O que lhe fez cursar
medicina veterinária? Você
já pensava em ser escritor
nesta época?
Estive entre a medicina
veterinária e o direito,
porque eram as profissões do
meu pai, a quem sempre
admirei. Escolhi a primeira
porque, aos dezoito anos, eu
era um gaúcho de verdade e
não queria me separar do
campo. Nunca me arrependi
dessa escolha. O veterinário
me sustentou por muitos
anos, até que me tornasse um
escritor profissional. E
isso impediu que eu
enveredasse por caminhos
errados na literatura,
apenas para sobreviver.
Comecei a escrever na escola
e ganhei o meu primeiro
prêmio literário aos dez
anos de idade. Foi um
concurso de redações sobre o
“Duque de Caxias” que
mobilizou muitas crianças da
cidade. O prêmio foi
entregue na praça, antes do
desfile do “Dia do Soldado”.
Nunca deixei de lhe dar
valor.
Sim, sempre pensei em ser
escritor. Um dia, mal
alfabetizado, peguei a
máquina de escrever da minha
mãe (com a qual ela batia os
discursos do meu pai) e
iniciei meu primeiro
romance. Acho que não passou
de quatro linhas.
Como foi a sua
experiência na Europa com a
bolsa conquistada na
faculdade?
Foi na França, onde cheguei
com 23 anos, que a minha
vocação se firmou para a
literatura. Hemingway dizia
que “se você teve a sorte de
viver em Paris quando jovem,
sua presença o acompanhará
pelo resto da sua vida”.
Essa é uma grande verdade.
Paris é muito mais do que a
França, é uma encruzilhada
universal. E a arte é uma
só. Você se prepara para ser
escritor, não só lendo bons
livros, mas também
apreciando pinturas, ouvindo
música, indo ao cinema e ao
teatro. Descobrir Brecht no
Teatro Nacional Popular,
onde os estudantes pagavam
uma ninharia, foi uma
revelação. O mesmo com
Buñuel na Cinemateca do
Palais de Chaillot. O mesmo
com os pintores
impressionistas, pois
Hemingway já me ensinara que
queria escrever como Cézanne
pintava.
Durante dois anos, enviei
crônicas semanais para o
jornal “Correio do Povo”, de
Porto Alegre, sob a rubrica:
“Cartas de Paris”. Até hoje
considero a crônica um
exercício fundamental para o
romancista. E me orgulho de
ter dois livros de crônicas
publicados.
Foi em Hannover, na
Alemanha, onde também fiz
pós-graduação em
veterinária, que escrevi
minha primeira novela “O
Gato e a Revolução”. Naquele
momento, tomei a decisão de
dar prioridade à literatura,
mesmo sacrificando a
carreira científica. Não foi
fácil, eu tinha 26 anos e já
me iniciava na cirurgia
experimental de transplantes
de órgãos. Mas nunca me
arrependi.
Você fez muitas viagens
quando trabalhou na Johnson
& Johnson. Alguma lhe marcou
mais? O que lhe marcou mais
neste período de sua vida?
Quando meu livro “O Gato e a
Revolução” foi cassado, após
o Ato Institucional de
dezembro de 1968, comecei a
sofrer perseguições na
universidade e tive que
buscar trabalho em São
Paulo. O curioso é que eu
era chamado de “comunista e
subversivo” em Porto Alegre,
o que não impediu uma
empresa americana de me
contratar. Pragmatas, eles
confiaram mais no meu
currículo de veterinário.
Além de viver em São Paulo,
uma cidade muito
profissional e culta, viajei
por diversos países a
serviço da Johnson&Johnson,
tendo feito um estágio de
três meses na Bélgica e de
um mês na Austrália. Foi
voltando da Austrália que
visitei a Ilha da Páscoa,
cuja descoberta narro no
livro “Sepé Tiaraju, romance
dos Sete Povos das Missões”,
um dos mais conhecidos, com
edições em Braille,
quadrinhos, e em outros
idiomas.
Seus livros já foram
muito elogiados em espanhol
e em alemão também, pois
relatam um Brasil que os
estrangeiros não estão
acostumados a ver. Fale
sobre isso.
Eu acredito, como Tolstoi,
“que o universo começa no
pátio da nossa casa”. Assim,
os temas brasileiros podem
agradar leitores de todo o
mundo e, se não somos mais
conhecidos, os escritores do
Brasil, é porque dependemos
de agentes literários com
experiência internacional
(temos pouquíssimos) e
tradutores competentes
(menos escassos, mas também
em falta). Quando viajei
pela Alemanha, em 1997,
realizando conferências e
lançando as versões em
alemão dos livros “Sepé
Tiaraju” e “Ana Sem Terra”
fiquei impressionado com o
interesse despertado nas
quinze cidades visitadas,
inclusive Berlim. A tônica
da imprensa alemã foi a
afirmativa de que livros
como os meus abrem uma porta
para a compreensão da
literatura e da saga
brasileira atual, uma vez
que abordam temas históricos
e sociais, inclusive com
personagens que sofreram com
a imigração. É a vantagem
dos romances que popularizam
esses temas.
Quando inicia um livro,
sabe antecipadamente seu
conteúdo, já o planejou na
cabeça ou vai construindo-o
aos poucos?
O roteiro está na minha
cabeça e só começo quando
termino o fundamental da
pesquisa, o que, às vezes,
pode levar até dois ou três
anos. Mas nunca me coloco
num trilho e sim numa
trilha, o que me permite
enriquecer o romance, a
qualquer momento, com novas
situações e personagens.
Você
começou imitando alguém?
Quem?
Sofri a influência de Erico
Verissimo, como os
escritores rio-grandenses da
minha geração e ainda
considero “O Tempo e o
Vento” e “O Prisioneiro”
como duas obras primas da
nossa literatura. A
Hemingway já me referi,
sendo sua lição principal a
necessidade de conhecer a
fundo um tema antes de
transformá-lo em livro, como
é claro em toda sua obra,
mas especialmente em “Por
quem os sinos dobram?” e “O
velho e o mar”. Aliás,
Lobato, a quem já me referi,
foi tradutor de Hemingway.
Durante o período francês,
outros escritores me
influenciaram, como Roger
Martin du Gard, André
Malraux, Exupéry, Sartre e
Simone de Beauvoir, Sagan,
Pagnol. Muitos, muitos
deles, sem citar os mais
modernos.
Há algum
livro seu que você já amou e
hoje não gosta mais, como
acontece com alguns
escritores? Por que?
Acho que tive muita sorte,
como expliquei acima, em
poder me sustentar como
veterinário. Assim, não
aceitei escrever livros
pornográficos, que eram
muito bem pagos na década de
setenta a oitenta, quando
vivi em São Paulo. Também
não me preocupei em publicar
um livro por ano, o que é o
erro de muitos, até por
necessidade material. Livro
é como a gente, tem período
de gestação.
Qual o
seu objetivo com a escrita?
Contar histórias, como meu
pai fazia, só que por
escrito. Criar personagesn e
dar vida a outros que
merecem ser conhecidos, como
o índio Sepé Tiaraju, o
negro João Cândido e o
branco Alberto Santos
Dumont, cuja história é mal
contada nos livros e nas
escolas, ou nem é narrada
aos alunos, como no caso do
“Almirante Negro”.
Acredito na literatura como
caminho ético e estético. E
o ato de escrever, como
disse alguém, é tanto uma
vocação como uma condenação.
Para mim, também, uma ótima
maneira de manter o alto
astral, o equilíbrio
psíquico. Gosto tanto, que
até pagaria para escrever.
Se me pagam, é ainda melhor.
Quais são, na sua
opinião, suas principais
qualidades e seus principais
defeitos como escritor?
As qualidades acho que são
ligadas ao respeito com o
tema e com o leitor. Como
sempre digo aos meus alunos,
é preciso preparar-se para
escrever como um atleta
olímpico se prepara para
competir. Só o talento não
basta.
Dos defeitos não vou falar.
Os livros são como filhos,
não é verdade?
E a sua
rotina, como funciona? Você
escreve todos os dias? Tem
horários próprios para isso?
Concilia com facilidade a
vida profissional e a vida
pessoal?
Não sou escritor de fim
de semana. Quando estou
escrevendo um livro, reservo
para ele todas as manhãs.
Antes, quando tinha
expediente de outro trabalho
a cumprir, era comum começar
a escrever de madrugada,
acordando cada vez mais
cedo. Lembro de um dia que
acordei a uma e meia com um
trecho do livro na cabeça,
levantei e segui escrevendo
até às sete da manhã. Tomei
café e fui para o outro
trabalho. Sou matinal para
escrever. O sono me descansa
e me inspira.
Hoje só escrevo, traduzo,
participo de reuniões do
Conselho Estadual de Cultura
do RS, faço palestras e dou
aulas de oficina literária.
Posso organizar melhor o meu
tempo, como fiz nos últimos
seis meses, em que escrevi
um romance e um livro para o
público infantil.
E o seu
fascínio por Santos Dumont,
de onde veio? Sua pesquisa
levou muito tempo para ser
feita? Você prefere
trabalhar com livros como
esse ou com ficção?
Meu fascínio nasceu
quando li um livro de Santos
Dumont, publicado em Paris,
em 1904, e cujo original em
francês só foi traduzido no
Brasil 37 anos depois. Nesse
livro, que achei na
biblioteca do meu pai,
descobri que o nosso
inventor já era famoso muito
antes do primeiro voo do
14-Bis, pois foi ele quem
deu dirigibilidade aos
balões. Assim, ao contrário
dos irmãos Wright, que
fabricavam bicicletas antes
de seu pretenso voo com o
Flyer, em 1903, Santos
Dumont já era reconhecido
como aeronauta no mundo
todo, desde 1901, após seu
famoso voo de balão
dirigível em torno da Torre
Eiffel.
Outro aspecto que me
impressionou foi seu
idealismo e sua coragem.
Nunca vendeu nenhum dos seus
inventos, doou-os todos para
o patrimônio comum da
humanidade. E nunca
contratou pilotos de provas,
ele próprio arriscava a vida
para provar suas teorias
revolucionárias.
Tenho dois livros sobre o
“Pai da Aviação”, ambos em
edição de bolso, pela L&PM.
O primeiro é um romance “Nos
céus de Paris” e o outro
“Santos Dumont” uma
biografia encomendada para a
enciclopédia em fascículos,
da editora. O romance foi
muito mais difícil porque me
exigiu uma pesquisa super
cuidadosa sobre Paris da
Belle Époque, e não se
brinca com Paris. Quando
Alberto voava em seus
balões, o que via lá em
baixo? Isso, sem contar que,
num romance, é preciso criar
diálogos. Para que fossem
autênticos, tive que
pesquisar nos jornais
franceses da época,
retirando frases
pronunciadas por ele. Um
romance histórico precisa
recriar também outros
detalhes sobre personagens
coadjuvantes. Tive que
estudar a vida da Princesa
Isabel porque foi amiga de
Santos Dumont. O mesmo com o
jornalista Jean Jaurès,
outro amigo dele, que foi
assassinado às vésperas da
Primeira Guerra Mundial, por
ser pacifista. Tudo isso
exige muito tempo e
paciência. Felizmente eu
domino o francês e meus
amigos de Paris me ajudaram
bastante.
E por Sepé Tiaraju?
Porque o meu primeiro livro,
“O Gato e a Revolução”, uma
sátira política, tinha sido
cassado pela ditadura.
Assim, eu queria escrever
sobre um tema social que não
fosse só meu, e sim, de
respeitabilidade universal.
Além disso, nunca aceitei as
teses colonialistas sobre a
incapacidade dos índios. E a
“República Guarani” com sua
estrutura econômica, social
e política, com sua cultura
expressa na pedra, na
madeira, na música, é um
desafio para os que ainda
defendem o genocídio do povo
guarani. Para os que não
aceitam que somos uma
sociedade gerada pelo
caldeamento de muitas raças
que os índios e negros
representam a maioria da
nossa herança.
Hoje, Sepé Tiaraju é
reconhecido oficialmente
como herói rio-grandense e
brasileiro. As ruínas de São
Miguel Arcanjo, cidade
missioneira da qual foi
prefeito, foram tombadas
pelo UNESCO como Patrimônio
da Humanidade. Meu livro deu
sua gota d’água para isso, o
que me deixa feliz.
Para você, Espanha e
Portugal devem desculpas ao
povo Guarani? Fale um pouco
sobre isso.
Não só desculpas. Na
Alemanha existe uma lei
chamada “Auschwitz Lüge”
(Mentira de Auschwitz) que
proíbe qualquer pessoa a
mentir, dizendo que não
houve o Holocausto dos
judeus e outras minorias
raciais, pessoas
assassinadas aos milhões
pelos nazistas. Além disso,
a Alemanha investe ainda
muito dinheiro para reparar
uma pequena parte desse erro
monstruoso. Acho que
poderíamos ter uma lei
semelhante, no Brasil, para
os que negam o holocausto
dos nossos índios, desde o
descobrimento. E Portugal e
Espanha deveriam investir
para preservar a vida e a
cultura dos guaranis e de
outros povos indígenas
sobreviventes.
Na
história nacional e mundial
da literatura, quais as
personagens mais bem
construídas que conhece e
por quê?
Ana Terra, de Erico
Veríssimo (que me inspirou
Ana Sem Terra) continua
viva, respirando, levando no
ventre um filho do índio
Pedro Missioneiro para
iniciar uma nova família
rio-grandense e brasileira.
Blau Nunes, o gaúcho pobre
de Simões Lopes Neto,
continua narrando histórias
preciosas, exemplo de
decência e honra.
O Jagunço Riobaldo de João
Guimarães Rosa é um desafio
para os que ainda consideram
esses párias da história
brasileira, Lampião, entre
outros, como meros bandidos
e assassinos.
Jean Valjean, de Victor
Hugo, ainda continua sendo
condenado, como todos os
miseráveis do mundo, pelo
crime famélico de roubar um
pão.
A cigana Pilar, de Ernest
Hemingway, continua
representando toda a mística
e personalidade autêntica da
alma espanhola.
Muitos mais, muitos mais.
Você acha que para se
tornar um grande escritor é
necessário trabalho duro,
como um “operário da
escrita”, ou é uma questão
de mero talento?
Acho que já respondi
essa pergunta aí por cima.
Como dizemos nas oficinas de
criação literária: Ars sine
scientia nihil est. Ou seja,
a arte sem a ciência nada é.
Talento é essencial, mas
deve ser burilado, como as
pedras preciosas.
Quais
personagens que já criou que
mais se identificam pelas
ideias ou como ser humano?
Criou-os já se tendo como
modelo ou escreveu e se
reconheceu apenas depois?
Oswaldo Winterfeldt é
uma personagem de ficção,
criada por mim, que me
apaixona. Quando algum
leitor de “O Mestiço de São
Borja” pergunta se le é o
meu alter ego, costumo
responder que não, ele é
muito melhor que eu. Não
nasceu pronto. Foi evoluindo
como ser humano através da
vida. Chorei ao descrever a
sua morte e me orgulho
disso.
O velho Tiovô, do livro “A
mulher do espelho” também me
encanta. Dou boas risadas
quando releio seus diálogos
com o sobrinho neto, um
engenheiro esquecido de
apreciar a vida como ela é.
Os nonagenários ainda são
raros como personagens da
nossa literatura.
Inspirei-me, em parte, no
meu tio Joaquim Tavares, que
morreu com 93 anos,
completamente lúcido, sem
nunca deixar de amar a vida.
De pura ficção, tenho outros
personagens que me tocam
muito, como a menina Vavá,
de “Lord Baccarat”, mas
vamos ficar por aqui.
Você se sente mais à
vontade escrevendo crônicas,
contos, romances, ensaios. .
.o quê?
Sou um romancista, no
essencial. São as águas em
que nado com maior
desenvoltura.
A poesia é também minha
companheira. Sempre que
posso, digo um verso. Não
necessariamente meu. O poeta
predileto é Garcia Lorca.
O que o levou a escrever
literatura infanto-juvenil?
Uma promessa que fiz a
mim mesmo, que só o faria
quando tivesse os cabelos
grisalhos. Não deu para
esperar mais. Experiência de
vida e de literatura são
essenciais nesse segmento.
Escrever para crianças é
muito mais difícil do que
escrever para adultos, podem
ter certeza.
E suas oficinas de
literatura? Quando surgiu a
idéia e como elas vem sendo?
Já pode destacar alguns
talentos que por lá passam
ou passaram?
Pratico oficinas de
criação literária desde
2002. Estou com vinte e um
livros na estante dos meus
alunos. Entre eles, alguns
romances, em que dizem que
sou o pioneiro, por ter
iniciado em 2003.
A idéia consolidou-se depois
de uma visita na PUC-RS ao
meu amigo e colega Luiz
Antônio de Assis Brasil, um
dos introdutores das
oficinas no Rio Grande do
Sul e no Brasil. Ele foi
generoso comigo, passando-me
o essencial do método que,
aos poucos, fui adaptando ao
meu jeito de pensar e
escrever.
Hoje tenho um prazer enorme
em ser professor novamente,
vocação antiga, da qual fui
afastado durante a ditadura.
Alunos de talento tive e
tenho muitos. Não vou
destacar nenhum, porque são
ciumentos, embora muito
unidos em seus trabalhos.
Também destacaria alguns
livros das oficinas que
dirigi como muito bons. Mas,
como maestro da orquestra,
não posso nomear os que
gosto mais.
Você é membro vitalício
da Academia Rio-Grandense de
Letras e sócio fundador da
Associação Gaúcha de
Escritores. Na sua opinião,
o que essas tantas academias
e associações de escritores
hoje em dia representam?
Qual a importância delas
para a literatura e para a
socidade?
Entrei na Academia
Rio-Grandense de Letras com
46 anos e na primeira
reunião fui apresentado ao
romancista Dyonélio Machado,
cujo livro “Os ratos” morou
muito tempo na minha
cabeceira. Dyonélio faleceu
naquele ano, mas ainda
consegui conversar com ele,
trocar algumas idéias.
Para mim o mais importante
dessa Academia, a única que
frequento, é o convívio que
tenho tido. De início,
apenas com os mais velhos.
Agora, também, com os da
mesma faixa etária e com os
mais moços. Não sei como são
as outras academias, mas a
nossa tem poucos bens
materiais, mas é honesta e
digna. E uma curiosidade:
nosso atual presidente, em
pleno exercício de suas
capacidades, tem 97 anos de
idade. Francisco Pereira
Rodrigues é o nome dele. Um
escritor e uma figura humana
admirável.
Quanto à AGEs, sou orgulhoso
de ter assinado a ata de sua
fundação, há 30 anos, porque
ela se preocupa com o
sucesso de cada um dos seus
filiados.
Como você
vê as universidades
atualmente?
Como sempre vi: sou
apaixonado por elas.
Universidade significa
preocupação com o
conhecimento universal. São
nossa plataforma de
lançamento para a chegarmos
a cidadãos do planeta Terra.
Utopia? Adoro as utopias.
Existem muitas universidades
que não prestam? É só
investir nelas.
Defina em algumas
palavras:
Amor:
raro e genial.
Sexo: verdadeiro, só
por amor.
Liberdade: essencial.
Religião: coisa
íntima.
Deus: idem.
Inteligência:
privilégio.
Burrice: uma praga.
Prosperidade:
necessária, mas para todos.
Vida: nosso maior
patrimônio.
Morte: sai prá lá.
Qual o
sentido da vida para você?
Acordar cada manhã sorrindo
e cheio de planos.
Já usou drogas, inclusive
bebidas?
Se vinho e cerveja estão
aí classificados, sim. E
gosto muito, nos momentos
que considero certos. Não
bebo todos os dias e nunca
sozinho.
Qual seu próximo
lançamento?
O romance “João Cândido, o
Almirante Negro”, dedicado
ao centenário da Revolta da
Chibata. Editora L&PM.
Lançamento previsto para o
dia 4 de novembro de 2010 na
Feira do Livro de Porto
Alegre, minha paixão.
O livro para crianças “O
Ventríloquo”, dedicado a
esse artista em extinção.
Editora Libretos. Lançamento
previsto para o dia 5 de
novembro de 2010 na Feira do
Livro de Porto Alegre, minha
paixão.
Gostaria
de dizer mais alguma coisa
que não foi perguntado ou
deixar uma mensagem para os
leitores?
Para ler e escrever é
preciso uma ferramenta
essencial da espécie humana:
a emoção.
Quem não é capaz disso,
ou coloca em segundo plano
esse sentimento, nunca será
bom escritor, nem leitor.